PENSAR ATRAVÉS DA ARTE

Walter Sebastião (1)

 

Começa amanhã, em Diamantina, o Fórum Arte e Ensino no Brasil. O evento integra a programação do 34º festival de Inverno da UFMG. Especialistas realizam palestras, conferências e oficinas dedicadas não só ao ensino da arte, mas também às relações entre as práticas artísticas e as diversas áreas do saber.
Como explica Fernando Pedro da Silva, coordenador do projeto, que vai se estendre até a próxima sexta-feira, o encontro é também um atividade preparatória de um outro grande fórum, de nível internacional, que deverá acontecer em 2003, voltado a pensar e debater o mesmo tema no contexto das Américas.
“O fórum vai discutir as grandes questões ligadas às relações entre arte e ensino”, afirma Fernando Pedro da Silva, acrescentando que a pauta do encontro em Diamantina procura contemplar questões que são de interesse de todos que atuam na área. Exemplificando, cita temas como a educação que se dá fora das salas de aula, as polêmicas ligadas à produção de arte contemporânea, as inovações trazidas pelas novas tecnologias ou as interfaces entre escola e museu.
Fernando Pedro da Silva avisa, ainda, que não é um evento dedicado à educação artística, com receitas de como ensinar arte, “mas que procura investigar as possibilidades de se pensar através da arte”. Como explica, o fórum surgiu a partir da sugestão do público participante do 1º Encontro de Artes das Américas, no ano passado, no Palácio das Artes.
Prejudicada pela alta do dólar, a realização de eventos internacionais é uma das preocupações de Fernando Pedro da Silva. Ele arrisca uma solução, acreditando que a saída é buscar recursos fora do Brasil. “É uma idéia a ser desenvolvida, já que não podemos ficar só na dependência de patrocinadores brasileiros”, diz, lembrando que o Fórum Arte e Ensino no Brasil está sendo realizado em parceria com a Universidade federal de Minas Gerais e o Museu de Arte da Pampulha.

Sem medo da televisão

“ A importância do Fórum Arte e Ensino no Brasil é retomar a vinculação entre arte e ensino que durante algum tempo foi rompida”, observa a gaúcha Analice Dutra Pillar, da Faculdade de Educação da UFRGS. Para ela, é muito bom que um encontro dedicado ao tema aconteça num espaço com tradições em debate culturais, como é o Festival de Inverno da UFMG.
Analice Pillar fará a conferência “Um convite ao olhar: televisão e arte na educação infantil”, sobre como a televisão influencia o olhar das crianças, em especial as muito pequenas (com até seis anos) que, segundo pesquisas, chegam a ver TV até seis horas por dia. O assunto é tema de uma pesquisa que a professora realiza desde 1980.
“Criança, hoje, vê televisão praticamente desde bebê”, diz. “O meu interesse é saber como as informações trazidas por esta ‘escola’ paralela influenciam a leitura da imagem da arte”, explica, adiantando que sua pesquisa vem mostrando que as referências e os contextos oferecidos pela televisão influenciam muito a forma como as crianças entendem a arte.
Segundo Analice Pillar, as crianças viram parincesas, como a Xuxa e a Angélica, numa pintura do século XVII - As Meninas, de Velásquez. Obras abstratas, jpor sua vez, escapuliam de referenciais televisivos, “ já que a TV é essencialmente figurativa”. Mas a pesquisadora não faz drama com a constatação.
“Não adianta ficar lutando contra a televisão”, avisa. “Chegou a hora de virar este disco. O que se pode fazer é tentar formar um olhar crítico. Pais e educadores devem conversar com a criança para saber como ela está entendendo o que vê na televisão”, recomenda. “É preciso ver o que as crianças assistem, como assistem, que imagens aparecem e ver até onde elas estão entendendo o que vêem.”
E vai mais adiante: “Se a criança apenas recebe a informação e guarda, fica sem chance de checá-la e ampliá-la. O cotidiano oferece coisas maravilhosas a partir do qual se pode incentivar uma ampliação da informação que chegue até uma elaboração simbólica mais refinada, como é a arte”.
É esta atitude que Analice Dutra Pillar considera importante, porque a TV é a principal fonte de informação para as crianças menores, que só colocar o aparelho em segundo plano quando vão para a escola e fazem novos amigos.
“Trata-se de passar do simplesmente ver para um olhar reflexivo a partir do exame de algumas imagens de modo um pouco menos acelerado, procurando a contemplação e a interação com a imagem”, argumenta.
Para a professora, um problema verdadeiro é o fato de não existir na escola o hábito da “leitura da televisão” e até a discussão sobre o veículo, como existe fora da escola. Até porque, sob formas despretensiosas, “são passadas questões de classe, de gênero, de etnia, que devem ser discutidas”. Um exemplo é a Branca de Neve, mostrada em desenhos animados e filmes como empregada dos sete anões, indicando o papel das mulheres na sociedade. (2)

 

nota:
(1) Walter Sebastião é jornalista, artista plástico e crítico de arte, além de membro do Instituto Arte das Américas.
(2) Publicado no Jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, segunda-feira, 8 de julho de 2002.


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